Em meio às festas e risos que costumam tomar conta da cidade durante os feriados prolongados, há uma ausência que preocupa, a dos doadores de sangue. Enquanto famílias se reúnem e estradas se enchem de viajantes, os estoques da Fundação Hemoba sentem o impacto dessa pausa coletiva.
A hematologista e coordenadora médica da coleta, Aline Dórea, explica que a redução já era esperada, mas ainda assim acende um alerta importante. “A cidade fica mais vazia, o movimento diminui, e isso se reflete diretamente nas doações”, afirma.
O problema é que, ao mesmo tempo em que os doadores somem temporariamente, a necessidade por sangue não tira folga. Pelo contrário. Acidentes, emergências e pacientes em tratamento contínuo mantêm a demanda ativa, e, muitas vezes, crescente.
Hoje, a situação dos estoques é delicada. Apenas os tipos B positivo e AB positivo estão em situação considerada estável. Todos os demais operam em nível crítico, com maior preocupação para os grupos O positivo, A positivo e, especialmente, o O negativo.
Esse último carrega um peso silencioso: é raro e universal em situações de urgência. Em casos extremos, quando não há tempo para identificar o tipo sanguíneo do paciente, é ele que salva vidas. Por isso, sua ausência é ainda mais sentida.
Para manter um nível considerado seguro, o ideal seria coletar entre 250 e 300 bolsas de sangue por dia em Salvador. Mas a realidade tem ficado aquém disso. Mesmo nos melhores dias, a coleta gira em torno de pouco mais de 200 bolsas.
A boa notícia é que, passada a Páscoa, a rede de coleta retoma seu funcionamento normal a partir desta segunda-feira (6). A sede na Avenida Vasco da Gama segue como principal ponto de doação, próximo ao Hospital Geral do Estado (HGE), funcionando de segunda a sexta, das 7h30 às 18h20, e aos sábados até 16h30.
Além dela, há unidades em hospitais estratégicos da capital, como o Hospital do Subúrbio, o Hospital Ana Nery e o Hospital Roberto Santos. Para quem prefere ambientes mais tranquilos, a recomendação é procurar esses postos hospitalares, geralmente menos movimentados.
Também há opções itinerantes, que aproximam ainda mais o gesto solidário da rotina das pessoas. Nesta semana, o ônibus de coleta passa pela Base Naval de Aratu e pelo Parque da Cidade, além de permanecer em alguns dias no Salvador Shopping.
Antes de sair de casa, a orientação é simples: consultar o site da Hemoba para verificar horários e locais atualizados. Um cuidado pequeno que pode tornar o processo mais rápido e confortável.
Doar sangue, afinal, exige pouco, mas pede responsabilidade. É preciso ter entre 16 e 69 anos, estar em boas condições de saúde, bem alimentado e descansado. Menores de 18 anos precisam estar acompanhados de seus responsáveis legais para assinarem o termo de autorização. Já o público idoso precisa já ser doador antes de completar 60 anos para prosseguir com a doação.
Um gesto simples, mas que passa por critérios que garantem segurança para quem doa e para quem recebe.
Aline faz um convite que soa quase como um lembrete delicado em meio à correria cotidiana. Inserir a doação na programação, assim como se planeja uma viagem ou um encontro em família.
“Quem puder, doe antes, durante ou depois do feriado. Sempre vai ter alguém precisando”, reforça.
Porque, no fim das contas, enquanto a cidade desacelera, há vidas que continuam dependendo desse fluxo invisível, e essencial, que corre nas veias da solidariedade.


