Por: Velho Barnabé”Ô meus fio, senta aqui perto da lamparina que eu vou contá uma coisa pra vocês…O sertão não é só poeira e sol quente não, visse? O sertão é mestre. E ele ensina todo dia, se a gente quiser aprender.Teve um ano que o inverno não veio. O céu ficou azul daquele azul brabo, sem uma nuvem pra dá água. A terra rachou. O rio virou um cordão de pedra. O gado magro, o milho não nasceu. Muita gente foi embora pra cidade, com o balaio na cabeça, dizendo que aqui não dava mais pra vivê.Mas meu pai ficou. E eu fiquei com ele.Ele me chamou uma manhã e disse: ‘Barnabé, vem cá. O sertão tá calado hoje, mas ele tá falano’.
Eu olhei e só vi poeira.
Ele pegou um punhado de terra seca na mão e soprou. ‘Viu? A semente tá aqui dentro. O sertão não morre. Ele só descansa. E quando chove, ele responde.’E choveu.
Não no mês que a gente queria. Choveu 6 meses depois, de madrugada. Uma chuva mansa, que parecia que o céu tava pedindo perdão.
Na semana seguinte a terra tava verde. O juazeiro deu folha. O gado bebeu água. Até o sabiá voltou a cantar. Desde aquele dia eu entendi:
O sertão ensina paciência. Ensina que nem todo tempo ruim é pra sempre. Ensina que a gente tem que guardar semente na hora da fartura, pra plantar na hora da seca. O sertão também ensina sobre gente. Aqui ninguém vive sozinho. Se a casa do vizinho caiu, 10 homens aparecem pra levantar. Se falta farinha, a gente divide o que tem. Porque seca passa, mas nome ruim de egoísta fica. Então quando vocês acharem que tá difícil, que não tem mais jeito, lembrem do juazeiro.
Ele fica o ano todo pelado, feio, parecendo morto. Mas quando a chuva chega, ele é o primeiro a dá sombra e fruto.O sertão é assim também, meus fio. Duro por fora, mas cheio de vida por dentro. E quem nasce aqui, aprende a ser juazeiro.”
Autor Velho Barnabé
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