contado pelo Velho Barnabé
Ô cumpade, senta aí na calçada que eu vou te contar um causo. Lá no meu tempo de menino, no terreiro da casa da minha avó, tinha um pé de ipê.
Ipê amarelo, daqueles que quando floresce parece que o céu desceu pra terra. Todo ano, bem no comecinho da seca, ele ficava pelado.
Seco, feio, galho pra todo lado.
A gente olhava e dizia: “Esse pé morreu, vó”. E minha vó, de saia rodada e terço na mão, respondia:
“Deixa ele quieto, Barnabé. Ipê não morre. Ipê só tá juntando força.” E era mesmo.
Passava um tempo e, de repente, puff!
Aquele galho seco amanhecia todo amarelo.
Não tinha uma folha verde. Só flor.
Era tanto amarelo que até as abelha ficava tonta. Sabe o que esse pé de ipê me ensinou? Que na vida tem hora que a gente fica igual ele.
Pelado, seco, sem folha, sem ninguém acreditando.
A família fala “não vai dar”, o patrão manda embora, a conta chega…
Aí parece que morreu tudo. Mas não morreu não, cumpade.
Às vezes Deus tá só podando a gente por dentro.
Tirando folha velha, tirando gente errada, tirando peso…
Pra depois fazer a gente florescer bonito demais. Não tenha pressa.
Não desista no inverno.
Porque quem tem raiz, uma hora floresce. Igual o pé de ipê da minha vó.
Feio hoje, mas amarelo amanhã. E se alguém disser que você tá seco…
Responde: “Tô não. Tô juntando força pra florir.”


