Por trás da queda está uma combinação de fatores: inadimplência no campo, juros elevados, antecipação de emissões em 2025 e, sobretudo, aumento da insegurança jurídica em torno das garantias
A emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), uma das principais formas de financiamento do setor no mercado de capitais, despencou 77% no primeiro semestre de 2026. A média mensal caiu de R$ 5,3 bilhões no segundo semestre do ano passado para R$ 1,2 bilhão neste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Na comparação com o primeiro semestre de 2025, quando a média mensal era de R$ 2,4 bilhões, a baixa é de 50%.
Por trás da queda está uma combinação de fatores: inadimplência no campo, juros elevados, antecipação de emissões em 2025 e, sobretudo, aumento da insegurança jurídica em torno das garantias. Gestores de fundos especializados passaram a se preocupar com a possibilidade de não conseguir executar bens dados em garantia em caso de recuperação judicial ou atraso no pagamento.
É algo que vem acontecendo em todos os segmentos da economia: a empresa se enrosca para pagar suas contas e pede recuperação judicial ou extrajudicial para ganhar tempo e tentar quitar suas dívidas. Nesse processo, tenta incluir as garantias dos credores no instrumento. Mas, no agronegócio, gestores de fundos especializados reclamam que o buraco “é mais embaixo”.
Além de eventos climáticos e do preço depreciado das commodities terem pressionado produtores rurais e empresas de insumos, o problema ganhou escala porque os gestores passaram a mover processos judiciais em praças nas quais não estavam acostumados a atuar.
O receio ganhou força após decisões favoráveis a devedores em Estados relevantes para o agronegócio. Em alguns casos, a Justiça considerou sacas de grãos dadas em alienação fiduciária como bens essenciais à atividade do produtor rural, contrariando decisões de instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), e entendimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o mais recente de março de 2026.
Como os Fiagros listados na Bolsa estavam entre os principais compradores de CRAs, a cautela desses fundos ajudou a travar novas operações. Em vez de crescer, gestoras passaram a diversificar a exposição, reforçar garantias e evitar estruturas mais vulneráveis à judicialização.
Fonte Estadão


