Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que, mantido o atual ritmo de emissões de gases de efeito estufa, a temperatura média global poderá subir entre 2,6°C e 3,1°C até o final do século
Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 1972, durante a Conferência de Estocolmo, a preocupação ambiental ainda era vista por muitos governos como um tema secundário diante das demandas econômicas e do crescimento das cidades. Mais de cinco décadas depois, a realidade é outra. O que antes era tratado como um alerta para as futuras gerações passou a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas em todo o planeta e também da Bahia.
A data é celebrada neste ano em um momento de destaque para o país. Nos próximos meses, o Brasil sediará a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Belém, reunindo chefes de Estado, cientistas, ambientalistas e representantes da sociedade civil de diversas partes do mundo. O encontro ocorre em meio a uma crescente pressão internacional para que os países ampliem suas metas de redução das emissões de gases de efeito estufa e fortaleçam ações de adaptação às mudanças climáticas.
O preço de décadas de omissão, com a emissão de gases poluentes, desmatamento e exploração predatória dos recursos naturais começou a ficar mais caro e os impactos passaram a bater à porta de governos e populações em diferentes partes do mundo, inclusive na Bahia, onde secas prolongadas, ondas de calor, enchentes, chuvas torrenciais que causam alagamentos e deslizamentos – com destaque para Salvador – e a crescente preocupação com a disponibilidade de água são alguns dos sinais.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a enchentes históricas no Rio Grande do Sul, secas severas na Amazônia, ondas de calor que bateram recordes sucessivos de temperatura e eventos extremos que afetaram cidades de diferentes regiões do país. Para se ter uma ideia, o ano de 2024, até então, foi o ano mais quente já registrado, embora os próximos possam vir piores, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), vinculada à ONU.
Na Bahia, onde convivem o semiárido mais populoso do planeta e uma extensa faixa costeira vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, o Governo do Estado vêm ampliando investimentos em programas de recuperação ambiental, adaptação climática, agricultura sustentável, reciclagem, arborização urbana e preservação dos recursos hídricos. Na mesma linha, a Prefeitura de Salvador tem ações em secretarias voltadas para a questão.
Temperatura – Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que, mantido o atual ritmo de emissões de gases de efeito estufa, a temperatura média global poderá subir entre 2,6°C e 3,1°C até o final do século. ‘Para os cientistas, esse cenário significa a intensificação de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais e perdas de biodiversidade”, explica o ambientalista Eduardo Santana.
Também nunca houve tanto dióxido de carbono na atmosfera desde muito antes do surgimento da civilização humana. O dado, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). O secretário-geral da ONU, António Guterres, tem sido uma das vozes mais contundentes nesse alerta. Durante a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ele afirmou que “o nosso planeta está à beira do precipício. Os ecossistemas estão em colapso”. Em outra manifestação, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, reforçou que “a poluição dos plásticos sufoca o nosso planeta, prejudicando os ecossistemas, o bem-estar e o clima”.
A preocupação também envolve a água. Relatório das Nações Unidas sobre os Recursos Hídricos Mundiais aponta que cerca de metade da população global enfrenta escassez severa de água durante algum período do ano. Em um mundo cada vez mais quente, a segurança hídrica passou a ser considerada um dos principais desafios do século XXI.
Governo da Bahia aposta em água, caatinga e agricultura de baixo carbono
Se as mudanças climáticas passaram a desafiar governos em todo o mundo, na Bahia a resposta tem sido construída a partir do campo e da convivência com o semiárido. Em um estado onde a escassez hídrica afeta milhares e onde a Caatinga ocupa grande parte do território, as ações ambientais passaram a caminhar lado a lado com políticas de desenvolvimento rural e segurança alimentar.
A principal aposta atualmente é o Programa Sertão Vivo, considerado uma das maiores iniciativas voltadas à adaptação climática já desenvolvidas no estado. O projeto ganhou novo impulso com a formalização,, recentemente, de investimentos próximos de R$ 300 milhões, resultado de uma parceria entre o Governo da Bahia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Fundo Verde para o Clima.
A iniciativa deverá beneficiar cerca de 300 mil pessoas em 49 municípios baianos. O foco está na recuperação de áreas degradadas da Caatinga, na implantação de tecnologias de captação e armazenamento de água da chuva, no fortalecimento da agroecologia e na ampliação da capacidade de adaptação das comunidades rurais diante das mudanças climáticas. Ao apresentar o programa, o governador Jerônimo Rodrigues destacou que os desafios ambientais e sociais precisam ser enfrentados de forma conjunta. “O enfrentamento das mudanças climáticas passa pela valorização das pessoas que vivem e produzem no semiárido”, afirmou.
Segundo o governo estadual, o objetivo é fortalecer a agricultura familiar, reduzir a pobreza rural e ampliar a segurança alimentar em regiões historicamente vulneráveis aos efeitos das secas. O Sertão Vivo integra uma agenda mais ampla de sustentabilidade que vem sendo desenvolvida pelo Estado.
Entre as ações estão o Plano ABC+ Bahia, voltado para uma agropecuária de baixa emissão de carbono, o programa Planta Bahia, que promove recuperação de áreas verdes e reflorestamento, além do Parceiros da Mata, direcionado ao fortalecimento da agricultura familiar em áreas de Mata Atlântica.
A Bahia também passou a apresentar suas experiências em fóruns nacionais e internacionais ligados à transição energética e à economia verde. Em agendas preparatórias para a COP30, representantes do governo têm defendido a necessidade de ampliar investimentos em energias renováveis, conservação da biodiversidade e adaptação climática, buscando posicionar o estado como referência nacional em desenvolvimento sustentável.
Salvador amplia reciclagem e ganha reconhecimento internacional
Na capital baiana, a pauta amiental passou a integrar de forma mais ampla as políticas públicas municipais. Uma das iniciativas de maior destaque é o Recicla Capital, programa que, segundo a Prefeitura de Salvador, fortalece a coleta seletiva e estimula a economia circular por meio da troca de materiais recicláveis por alimentos, produtos de higiene e descontos na conta de energia elétrica.
De acordo com dados divulgados pela administração municipal, mais de 34 mil famílias participam da iniciativa e cerca de cinco mil toneladas de resíduos deixaram de seguir para o aterro sanitário da cidade desde a implantação do programa. Além dos benefícios ambientais, a Prefeitura afirma que o projeto fortalece cooperativas de reciclagem e estimula a participação da população na gestão dos resíduos sólidos. Os resultados renderam reconhecimento internacional. Em 2025, Salvador conquistou o prêmio Local Leaders Awards, promovido pela Bloomberg Philanthropies e pela rede global C40 Cities. Ao comentar a conquista, o prefeito Bruno Reis afirmou que “fomos a única cidade da América Latina a reduzir mais de 30% das emissões de gases do efeito estufa e agora recebemos este prêmio histórico. O Recicla Capital é um sucesso e será exemplo para cidades do Brasil e do mundo”.
Segundo a gestão municipal, as ações ambientais também vêm sendo ampliadas em outras frentes. Entre elas estão a expansão dos corredores verdes, hortas comunitárias, projetos de arborização urbana, monitoramento da qualidade do ar e a revisão do Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas.
A Prefeitura informa ainda ter implantado neste ano a primeira microfloresta urbana da cidade, na região da Avenida Gal Costa, com mais de mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. Conforme o município, uma nova etapa dos corredores verdes foi iniciada no Cabula, com plantio de árvores na Avenida Silveira Martins, enquanto a Operação Plantio Chuva 2026 começou pelo Mané Dendê, no Subúrbio Ferroviário, utilizando o período chuvoso para recuperação de áreas degradadas.
A administração municipal informa também que desenvolve um novo inventário de emissões de gases de efeito estufa e amplia ações de monitoramento ambiental. Ao comentar o reconhecimento internacional recebido pela capital, Bruno Reis afirmou que “recebemos esse prêmio em reconhecimento a Salvador e ao nosso programa Recicla Capital para o tratamento dos resíduos sólidos”.
Água se torna uma das maiores preocupações do século
A água deixou de ser apenas uma preocupação associada à seca do semiárido na Bahia e passou a ocupar posição central nos debates sobre mudanças climáticas. Em um estado que abriga o semiárido mais populoso do planeta, especialistas alertam que garantir segurança hídrica será um dos principais desafios das próximas décadas.
Dados do Instituto Trata Brasil mostram que a Bahia está entre os estados com maiores índices de perdas de água tratada na distribuição. Cerca de 42,2% da água produzida deixa de chegar ao consumidor final em razão de vazamentos, ligações irregulares e problemas na infraestrutura, o que representa desperdício de um recurso cada vez mais valioso.
Segundo o estudo “Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas”, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e pela consultoria Ex Ante, o Brasil precisará ampliar em quase 60% sua produção de água tratada até 2050. Ao comentar o levantamento, a presidente executiva do instituto, Luana Pretto, afirmou que “os dados apresentados reforçam a tendência de aumento no consumo de água. As tendências climáticas indicam restrição de oferta de água”. Conforme a ONU, cerca de metade da população mundial enfrenta escassez severa de água em algum período do ano.
Fonte Tribuna da Bahia


