Dados reforçam a importância do diagnóstico precoce e da conscientização entre homens de 20 a 39 anos.
Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com base no Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde, mostra que 527 pessoas morreram por câncer de testículo no Brasil em 2024. Desse total, 61,67% eram homens de 20 a 39 anos e 76,66% tinham até 49 anos, o que indica maior impacto da doença em faixas etárias mais jovens.
Os dados apontam maior concentração de mortes entre 20 e 29 anos, com 190 registros, seguida da faixa de 30 a 39 anos, com 135. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, foram contabilizadas 21 mortes, enquanto homens com mais de 50 anos somaram 100 óbitos, o equivalente a 18,98% do total, aponta a entidade.
As estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam entre 1.700 e 2.000 novos casos por ano no Brasil no triênio de 2026 a 2028. Segundo o presidente da SBCO, Paulo Henrique Fernandes, a doença apresenta bom prognóstico quando identificada precocemente.
“Estamos falando de um câncer com altas taxas de cura quando identificado precocemente. Mesmo sendo mais frequente em homens jovens, responde muito bem ao tratamento, permitindo que a maioria dos pacientes retome sua qualidade de vida após a terapia”, destaca Fernandes.
Segundo o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, os óbitos estão associados a fatores clínicos e estruturais no acesso ao tratamento. “Porque ‘altas taxas de cura’ não significam risco zero. As mortes costumam estar ligadas a uma combinação de fatores: doença já avançada ao diagnóstico, tumores mais agressivos, recidiva ou resistência ao tratamento, atraso para iniciar o tratamento adequado e desigualdade de acesso a médicos especialistas, exames diagnósticos como ultrassom, marcadores tumorais e à cirurgia e tratamento oncológico”, aponta.
O especialista, que é diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o prognóstico depende de características como estágio da doença, tipo de tumor, tamanho, linfonodos e marcadores tumorais. Mesmo assim, ressalta que o câncer de testículo costuma ser curável quando tratado corretamente.
O tratamento varia conforme o tipo e a extensão do tumor, mas a cirurgia para retirada do testículo afetado é a principal abordagem inicial. Em alguns casos, como detalha a SBCO, pode ser complementada por quimioterapia ou radioterapia, de acordo com a probabilidade de recorrência e as características clínicas do paciente.
Além do risco de morte, a doença e o tratamento podem impactar a fertilidade e a vida sexual dos pacientes, especialmente por atingir homens em idade reprodutiva. Guimarães afirma que a discussão sobre preservação da fertilidade deve ocorrer antes do início do tratamento.
“Esse tema precisa ser conversado antes da cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Os testículos produzem espermatozoides e testosterona, e o próprio câncer pode vir acompanhado de baixa contagem ou pior qualidade do sêmen; além disso, quimioterapia, radioterapia e algumas cirurgias podem reduzir a fertilidade de modo temporário ou permanente”, destaca.
Por isso, o banco de sêmen é uma recomendação importante para quem deseja preservar a possibilidade de filhos biológicos no futuro. O médico explica ainda que a retirada de um dos testículos não impede, em geral, a ereção nem a fertilidade, desde que o outro esteja saudável.
Já tratamentos mais intensivos podem prolongar ou tornar permanente a infertilidade, com tempo de recuperação variável entre os pacientes. A identificação precoce da doença depende da atenção a sinais e alterações nos testículos.
“Há uma diferença importante entre rastreamento populacional e atenção aos sinais. Para homens assintomáticos, grandes recomendações de rastreamento não indicam triagem de rotina por autoexame ou exame médico periódico”, completa. Isso não significa ignorar os testículos, e o próprio INCA orienta a busca por avaliação diante de alterações, pontua Guimarães.
Entre os principais sinais de alerta estão nódulos endurecidos, aumento ou diminuição do tamanho dos testículos, dor ou desconforto local, sensação de peso no escroto e alterações na consistência. “A orientação central é: conheça o próprio corpo e procure atendimento rapidamente ao notar qualquer alteração testicular. Não espere ‘passar’, não trate por conta própria como infecção ou trauma, e não deixe vergonha atrasar a consulta”, recomenda.
O caminho ideal costuma incluir exame físico, ultrassonografia da bolsa escrotal e marcadores tumorais no sangue, conforme avaliação médica. Segundo o especialista, o diagnóstico precoce amplia as chances de cura e pode reduzir a necessidade de tratamentos mais agressivos.
Fonte Tribuna da Bahia


