Barnabé conta:

Aí passei na feira e vi uma muié vendendo sabonete. Mas não era sabonete qualquer não…
Era sabonete de limão importado. Cheiroso que só. A muié dizia: ‘Leva seu véio, que esse aqui tira até pecado!’ Eu olhei o preço… meu Deus do céu! 3 conto num sabonete.
Mas pensei: ‘Barnabé, tu merece um cheiro bom’. E comprei.
Guardei ele igual ouro. Dentro de um saquinho plástico, dentro de uma lata, dentro do armário.
Dizia pra muié: ‘Isso aqui é só pra domingo e dia de visita importante’. Pois choveu. E choveu feio.
3 dias de chuva aqui no sertão e a ladeira da minha casa virou uma pista de sabão. Na quarta-feira meu neto Joãozinho veio me visitar. Moleque danado.
Ele viu a chuva e falou: ‘Vovô, vamo brincar de escorrega?’
Eu disse: ‘Menino, aqui não é parque não’.
Mas 5 minutos depois eu ouço um grito: ‘AIIII VOVÔ!’ Corri pra porta… cadê o menino?
Só vi um rastro de lama e espuma descendo a ladeira. Saí correndo atrás. E lá na metade do caminho eu vi:
Joãozinho sentado, todo lambuzado, e na mão dele… MEU SABONETE DE LIMÃO!O danado tinha achado a lata, achado o saquinho, e disse que ia ‘testar se prestava’.Eu gritei: ‘MENINO ME DEVOLVE ISSO!’
E ele, escorregando e fazendo espuma, gritou de volta:
‘VOVÔ TÁ CERTO! LAVA, LAVA, LAVA! ESFREGA, ESFREGA, ESFREGA CHERINHO DE LIMÃO!’Eita cumpade… o menino desceu a ladeira inteira ensaboando tudo.
Ensaboou a cerca, ensaboou o portão, ensaboou o jegue Estrelado que tava passando.
Quando parou lá embaixo, o sabonete já tinha acabado. Virou só um farelinho.Ele levantou, todo limpinho, cheirando limão de longe e disse:
‘Viu vovô? Prestou sim. Até a alma lavou!’Eu fiquei olhando pro farelinho na mão dele… 3 conto no lixo.
A muié riu e disse: ‘Barnabé, deixa ele. Pelo menos tá limpo e cheiroso’.Desde aquele dia virou lei aqui em casa:
Choveu? Já grita: ‘LAVA, LAVA, LAVA… ESFREGA, ESFREGA, ESFREGA CHERINHO DE LIMÃO!’

Feito por BARNABÉ

ISERTÃO

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