Das mais de 31 mil mortes registradas no país em 2025, aproximadamente 28 mil teriam ligação direta com o cigarro
Mesmo após décadas de campanhas de conscientização e da redução no número de fumantes no Brasil, o tabagismo continua sendo um dos principais fatores evitáveis de morte por câncer no país. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) estima que mais de 63 mil mortes registradas em 2025 estejam relacionadas ao consumo de derivados do tabaco. O estudo considera 12 tipos de câncer diretamente associados ao hábito de fumar, entre eles pulmão, laringe, esôfago, cavidade oral, pâncreas e bexiga.
Os dados foram elaborados a partir de informações da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026 e estudos epidemiológicos sobre fração atribuível ao tabaco. Segundo a SBCO, os 12 tipos de tumores analisados somaram mais de 132 mil mortes em 2025. Desse total, quase metade teria relação direta com o consumo de cigarros.
O câncer de pulmão aparece como o mais preocupante. De acordo com a projeção, cerca de 90% das mortes pela doença estão associadas ao tabagismo. Das mais de 31 mil mortes registradas no país em 2025, aproximadamente 28 mil teriam ligação direta com o cigarro. Tumores de laringe e esôfago também apresentam índices elevados de associação ao tabaco.
Na Bahia, embora não haja um levantamento específico consolidado pela SBCO, especialistas alertam que o impacto segue expressivo, principalmente por conta do diagnóstico tardio e das dificuldades de acesso ao tratamento especializado em algumas regiões do estado.
O cirurgião oncológico e presidente da Regional Bahia da SBCO, Herbert Ives Barretto Almeida, destaca que o tabagismo permanece como uma das principais causas evitáveis de câncer. Segundo ele, os tumores mais associados ao cigarro seguem sendo os de pulmão, boca, garganta, laringe, esôfago, bexiga e pâncreas.
“O câncer de pulmão continua sendo o mais letal. No Nordeste, também observamos preocupação importante com os cânceres de cabeça e pescoço, que frequentemente são diagnosticados em fases avançadas”, afirma o especialista.
O médico ressalta ainda que o cigarro potencializa riscos quando associado a outros hábitos nocivos, como o consumo excessivo de álcool, realidade ainda observada em parte significativa da população brasileira.
Outro desafio apontado pelos especialistas é a dificuldade em reduzir o número de fumantes entre os jovens. A iniciação precoce ao tabagismo, aliada à dependência química causada pela nicotina, dificulta o combate à doença e amplia os impactos futuros na saúde pública.
“Há desafios relacionados ao acesso aos programas de cessação do tabagismo e à necessidade de fortalecer campanhas permanentes de conscientização. Além disso, a indústria do tabaco continua investindo em estratégias indiretas de marketing e em novos dispositivos”, alerta Herbert Ives.
Entre esses dispositivos, os cigarros eletrônicos se tornaram uma das maiores preocupações das autoridades sanitárias e dos especialistas em oncologia. Apesar de serem vendidos como alternativas menos nocivas, estudos apontam que muitos aparelhos possuem concentrações elevadas de nicotina e substâncias tóxicas capazes de provocar dependência precoce e danos ao organismo.
No Brasil, a comercialização dos cigarros eletrônicos segue proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ainda assim, o uso dos dispositivos cresce entre adolescentes e adultos jovens, principalmente por meio do comércio irregular e da divulgação nas redes sociais.
Segundo Herbert Ives Barretto Almeida, existe o temor de que os cigarros eletrônicos funcionem como porta de entrada para o tabagismo convencional, criando uma nova geração de dependentes da nicotina.
“A grande preocupação é que esses dispositivos não são inofensivos. Muitos possuem altas concentrações de nicotina e expõem os usuários a substâncias potencialmente cancerígenas”, afirma.
Os especialistas também observam mudanças no perfil dos pacientes diagnosticados com câncer relacionado ao tabagismo. Um dos fenômenos que chama atenção é o aumento proporcional de casos entre mulheres, reflexo do crescimento do hábito de fumar nesse público nas últimas décadas.
Além disso, médicos relatam que muitos pacientes chegam aos hospitais e centros de referência já em estágios avançados da doença, o que reduz as chances de cura e aumenta a mortalidade.
Fonte Tribuna da Bahia


