AMERICANOS largaram na frente na nova corrida espacial rumo ao satélite terrestre, mas países asiáticos também têm projetos ambiciosos para os próximos anos
Os Estados Unidos largaram na frente na nova corrida espacial para a (re)conquista da Lua, ao lançar a missão Artemis II, que leva quatro astronautas para um sobrevoo ao satélite. Se, no passado, o principal adversário dos EUA era a extinta União Soviética, agora China e Índia estão na disputa. Os programas lunares já anunciados pelos dois países asiáticos (e também pelos EUA) refletem estratégias nacionais de longo prazo, objetivos científicos e econômicos, além de interesses geopolíticos.
Enquanto os EUA prometem um pouso na Lua em 2028, a China diz que vai levar seus taikonautas (como são chamados os astronautas chineses) ao satélite em 2030, e a Índia se programa para uma alunissagem tripulada em 2040.
Interesses científicos e econômicos
Mas por que, mais de 50 anos depois da última ida à Lua, as grandes potências mundiais estão novamente interessadas no satélite terrestre? A primeira explicação é científica: os programas espaciais dos países querem usar a Lua como uma base para o lançamento de futuras missões a Marte.
A ciência, porém, não é o único propulsor da nova corrida. Está em jogo a soberania geopolítica e tecnológica, além de interesses econômicos. Enquanto Marte ainda não é um destino viável, a (re)conquista da Lua é o símbolo dessa nova supremacia mundial, exatamente como foi há mais de meio século.
Cada vez mais, a Lua é vista como um polo para futuras atividades industriais, oportunidades estratégicas e desenvolvimento de tecnologia e exploração de minerais raros. E os dois países asiáticos têm grandes ambições para a exploração lunar, ainda que estratégias diferentes.
Estratégia cislunar
Os distintos caminhos de China e Índia rumo à Lua revelam como as potências asiáticas estão reconfigurando a distribuição de poder e influência no chamado espaço cislunar – a porção do espaço que fica entre a Terra e a Lua.
Qualquer análise sobre o futuro do satélite terrestre deve levar em conta os programas lunares de China e Índia ou não conseguirá oferecer uma explicação mais aprofundada sobre por que a Lua está se tornando um ativo crucial na geopolítica de poder espacial.
Rigolito lunar
No ano passado, a exemplo do que os EUA já tinham feito, a China anunciou seus planos de estabelecer uma presença permanente no polo sul do satélite terrestre. As próximas missões, como a Chang 7 (prevista para este ano), têm por objetivo mapear os depósitos de água congelada nessa região permanentemente oculta da Terra. A água é um recurso crucial para a permanência de longo prazo no satélite e também para a produção local de combustível e infraestrutura.
A Chang 8 (prevista para 2029), por sua vez, vai testar ferramentas e técnicas de exploração do rigolito lunar – a camada de poeira e rocha fragmentada, com 10 a 15 metros de profundidade, que cobre a superfície da Lua.
Essa camada foi formada pelo impacto de meteoritos ao longo de bilhões de anos e é extremamente abrasiva e eletrostática, o que significa um risco potencial a equipamentos e à saúde humana. O rigolito, entretanto, é rico em recursos como ferro, alumínio e oxigênio, que serão essenciais para a construção de futuras bases lunares.
As duas missões abrem caminho para a construção de uma Estação Lunar Internacional de Pesquisa, um projeto a ser desenvolvido na próxima década, que ancoraria a presença permanente dos chineses na superfície lunar. Paralelamente, a China está trabalhando no desenvolvimento do foguete Long March 10, para as futuras missões tripuladas, e redesenhando o Long March 9, capaz de levar um grande volume de material para a Lua. O país desenvolve ainda uma sofisticada constelação de satélites própria para a comunicação com a Lua.
Fonte: Estadão


